quinta-feira, junho 10, 2004

O Último Poema

" Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação."

manuel bandeira


terça-feira, junho 08, 2004

embrasa...

deambulamos

pelos cheiros
pelos sabores
pelos encontros

lembramos

desencantos
desencontros
lutos

que enfeitamos com azeitonas...

e

r
e
g
a
m
o
s

com



Monte Velho



aquecemos a alma
com a brasa
assando

momentos

a cheirar

erva cidreira
a bailar em manjerico

misturamos

riso
lágrimas
pimentos e cebola

e juntamos

o acontecer ao caldo verde

que se embebedava...

eufórico
tropeçando

em rodela de chouriço


tucha
aldinha
zézé "que ofereceu o jantar em Matosinhos"
daniel

que não ficou pelos polinsaturados
e quis
brincar às fêveras

eamim

que namorei o lume...

a despertar sentires

subindo em silêncio...

crepitando música...
embalada


pelo sopro...



SPEED DIAL NO.2

domingo, junho 06, 2004

ensina-meavoar...










...históriasdencantar...parameninosemeninas...

...históriasdencantar...parameninosemeninas


voutomarbanhodespuma
...resfastelarnopuf...
paradepoisir
fazermarchanafoz...

3

L..... fotografei em entrevista a Elis na última vez que veio a Porto Alegre antes de morrer. Vou procurar a foto no escritório e te mando.
Beijos.
LuizAchutti

PS: Depois do anuncio da sua morte eu fui para o laboratório, enquanto a foto surgia mergulhada no revelador me veio a cabeça a seguinte frase sobre o artista:

Aquele que reinvente a vida para que a morte possa parecer brincadeira.

Vou procurar a foto.

3


Vai a Elis...

L..... fotografei em entrevista a Elis na última vez que veio a Porto Alegre antes de morrer. Vou procurar a foto no escritório e te mando.
Beijos.
LuizAchutti

PS: Depois do anuncio da sua morte eu fui para o laboratório, enquanto a foto surgia mergulhada no revelador me veio a cabeça a seguinte frase sobre o artista:

Aquele que reinvente a vida para que a morte possa parecer brincadeira.

Vou procurar a foto.

Vai a Elis ...



Outra da Elis

L..... fotografei em entrevista a Elis na última vez que veio a Porto Alegre antes de morrer. Vou procurar a foto no escritório e te mando.
Beijos.
LuizAchutti

PS: Depois do anuncio da sua morte eu fui para o laboratório, enquanto a foto surgia mergulhada no revelador me veio a cabeça a seguinte frase sobre o artista:

Aquele que reinvente a vida para que a morte possa parecer brincadeira.

Vou procurar a foto.


Outra da Elis



....NÃOTESQUEÇASDEMIM...DIZESMUITASVEZES...


....históriasdencantar...parameninosemeninas...



nãomeprendasnocopodecristal

deixa-meserlivresempredependuradaporumfio

espreitaresaltaromundo


mastambém

nãomodeixescarregar


oufazerdelemeuinstrumento

mesmocantandoatuacanção..



e


tocaparamim





vou
gostardeteouvir...


emsilêncio...

sábado, junho 05, 2004

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.


E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.


Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia

UM AMOR FELIZ



...a maravilha que deve ser escrever um livro: a invenção dentro da memória;a memória dentro da invenção: e toda eesa cavalgada de uma grande fuga,todo esse prodígio de umas poligâmicas núpcias, secretas e arrebatadas, com a feminina multidão das palavras: as que se entregam,as que se esquivam;as que é preciso perseguir;seduzir;ludibriar; as que por fim se deixam capturar, palpar, despir, penetrar e sorver, assim proporcionando, antes de se evaporarem, as horas supremas de um amor feliz. Não há matéria mais carnalmente incorpórea; nem outra mais disposta a por amor ser fecundada.

(in Um Amor Feliz, p.229,pp.119-121

sexta-feira, junho 04, 2004

Vou procurar a foto

L..... fotografei em entrevista a Elis na última vez que veio a Porto Alegre antes de morrer. Vou procurar a foto no escritório e te mando.
Beijos.
LuizAchutti

PS: Depois do anuncio da sua morte eu fui para o laboratório, enquanto a foto surgia mergulhada no revelador me veio a cabeça a seguinte frase sobre o artista:

Aquele que reinvente a vida para que a morte possa parecer brincadeira.

Vou procurar a foto.

Maria Rita Mariano

...Elis tinha tudo para se tornar mais uma professora da classe média gaúcha: pobre, estrábica, filha de uma dona de casa e de um operário, morando numa remota cidade do último Estado do sul de um abandonado País do Terceiro Mundo. Com que direito ela poderia imaginar ser outra coisa? O direito de possuir a voz mais bela que este mesmo País já ouviu. Elis transformou a sua voz no seu mote. Era com ela que iria conquistar o mundo, e fez isto brilhantemente...


Envolveu-se com tudo de forma radical - com a música, com a política, com a vida. Maldita para muitos, Elis tinha sempre a frase certeira, a mente afiada, propósitos firmes: 'Cara feia pra mim é bode... Sou mais ardida que pimenta!'.''


É de sonho e de pó
O destino de um só
feito eu perdido em pensamentos sobre o meu cavalo
É de laço e de nó
De gibeira o jiló dessa vida
Cumprida a sol

Refrão
Sou caipira pira pora Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida
Sou caipira pira pora Nossa senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida

O meu pai foi peäo, minha mäe solidäo
Meus irmäos perderam-se na vida em busca de aventuras
Descansei, joguei, investi, desisti
Se há sorte, eu näo sei, nunca vi

Refrão

Me disseram porém, que eu viesse aqui
Pra pedir de romaria e prece paz nos desaventos
Como eu näo sei rezar
Só queria mostrar meu olhar, meu olhar, meu olhar






Elis Regina

quinta-feira, junho 03, 2004

um rosto queimado pelo sonho

surviving

leica gallery

O viravento com papel de revista



MATERIAL:

· Um quadrado de papel de revista

· Um pauzinho

· Uma tesoura

· Uma régua

· Uma rodela cortiça

Um alfinete


Recorta um quadrado e marca as diagonais.


Corta a partir de cada canto até metade da linha no ponto central

Dobra as partes e fixa-as no centro. Coloca a rodela de cortiça e prega-a ao pauzinho com um alfinete.

quarta-feira, junho 02, 2004

São João no Porto



São João, p'ra ver as moças,
fez uma fonte de prata.
As moças não vão à fonte,
São João todo se mata.


quadra popular tradicional,
autor desconhecido

entrevista

O MENINO DA FOTO

Ontem abri o guia telefônico de Paris para procurar o seu telefone e como previa não o encontrei. Se tivesse encontrado teria feito, apesar dos meus 40 anos, como fazem os meninos quando procuram seus ídolos. - Não consigo mais acreditar em grandes utopias e também não consigo mais ter ídolos, apenas pessoas as quais admiro e respeito, e o senhor é uma delas. - Se tivesse encontrado seu telefone, teria dito-lhe que sou um fotografo brasileiro, gaúcho do sul do Brasil, morando em Paris e que gostaria de conhecer-lhe, poder falar-lhe uns minutos e dar-lhe um livro com minhas fotografias.

Se tivéssemos tido algum tempo eu teria falado um pouco sobre meu avô, Bortolo Achutti, já falecido que estaria com cem anos. Teria contado-lhe que meu avô, também fotografo, morou toda a vida no interior do Rio Grande do Sul e que morreu tendo seu trabalho reconhecido apenas localmente. Eu teria dito ao senhor que comecei na fotografia por influência de meu avô e que continuei por indireta influência sua. Eu teria decorado para repetir-lhe o que escreveu Steichen: "a fotografia não saberia ser mais útil do que ilustrando as relações humanas e permitindo ao homem compreender seu semelhante". Depois, eu teria comentado que se pode fazer isso com imagens épicas ou líricas, que as líricas como as suas são mais difíceis de fazer-se e sempre tocaram-me muito mais.
O senhor não teria perguntado-me, mas eu teria encontrado uma forma de dizer-lhe que uma das suas fotos que mais gosto é aquela do menino na calçada carregando bem faceiro duas garrafas de vinho. Henry Cartier-Bresson, não falei com o senhor e nem dei-lhe o meu livro, mas hoje imaginei-me no lugar do menino daquela sua foto, levando os vinhos para o senhor, depois decidi escrever-lhe esta carta.
Feliz aniversario.

Sou o menino desta outra foto, feita pelo meu avô Bortolo.
Achutti

Achutti, Paris 21 de agosto de 1999.



NOVAS POESIAS INÉDITAS

DIE POESIE IST DAS ECHT
ABSOLUT REELLE. DIES IST DAR KERN
MEINER PHILOSOPHIE. JE POETISCHER, JE WAHRER.


A POESIA É O AUTÊNTICO REAL
ABSOLUTO. ISTO É O CERNE DA
MINHA FILOSOFIA.
QUANTO MAIS POÉTICO, MAIS VERDADEIRO.



Novalis.


VENDAVAL


Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,
Não achas, soprando por tanta solidão,
Deserto, penhasco, coval mais vazio
Que o meu coração!

Indômita praia, que a raiva do oceano
Faz louco lugar, caverna sem fim,
Não são tão deixados do alegre e do humano
Como a alma que há em mim!

Mas dura planície, praia atra em fereza,
Só têm a tristeza que a gente lhes vê
E nisto que em mim é vácuo e tristeza
É o visto o que vê.

Ah, mágoa de ter consciência da vida!
Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,
Que rasgas os robles - teu pulso divida
Minh'alma do mundo!

Ah, se, como levas as folhas e a areia,
A alma que tenho pudesses levar -
Fosse pr'onde fosse, pra longe da idéia
De eu ter que pensar!

Abismo da noite, da chuva, do vento,
Mar torvo do caos que parece volver -
Porque é que não entras no meu pensamento
Para ele morrer?

Horror de ser sempre com vida a consciência!
Horror de sentir a alma sempre a pensar!
Arranca-me, é vento; do chão da existência,
De ser um lugar!

E, pela alta noite que fazes mais'scura,
Pelo caos furioso que crias no mundo,
Dissolve em areia esta minha amargura,
Meu tédio profundo.

E contra as vidraças dos que há que têm lares,
Telhados daqueles que têm razão,
Atira, já pária desfeito dos ares,
O meu coração!

Meu coração triste, meu coração ermo,
Tornado a substância dispersa e negada
Do vento sem forma, da noite sem termo,
Do abismo e do nada!


16-2-1920.


Cai amplo o frio e eu durmo na tardança
De adormecer.
Sou, sem lar, nem conforto, nem esperança,
Nem desejo de os ter.

E um choro por meu ser me inunda
A imaginação.
Saudade vaga, anônima, profunda,
Náusea da indecisão.

Frio do Inverno duro, não te tira
Agasalho ou amor.
Dentro em meus ossos teu tremor delira.
Cessa, seja eu quem for!


19-1-1931.


Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.


2-8-1933.


Todas as cousas que há neste mundo
Têm uma história,
Excepto estas rãs que coaxam no fundo
Da minha memória.
Qualquer lugar neste mundo tem
Um onde estar,
Salvo este charco de onde me vem
Esse coaxar.

Ergue-se em mim uma lua falsa
Sobre juncais,
E o charco emerge, que o luar realça
Menos e mais.

Onde, em que vida, de que maneira
Fui o que lembro
Por este coaxar das rãs na esteira
Do que deslembro?

Nada. Um silêncio entre jucos dorme.
Coaxam ao fim
De uma alma antiga que tenho enorme
As rãs sem mim.


13-8-1933.


A lavadeira no tanque
Bate roupa em pedra bem.
Canta porque canta e é triste
Porque canta porque existe;
Por isso é alegre também.
Ora se eu alguma vez
Pudesse fazer nos versos
O que a essa roupa ela fez,
Eu perdeira talvez
Os meus destinos diversos.

Há uma grande unidade
Em, sem pensar nem razão,
E até cantando a metade,
Bater roupa em realidade...
Quem me lava o coração?


15-9-1933


Sonhei, confuso, e o sono foi disperso,
Mas, quando dispertei da confusão,
Vi que esta vida aqui e este universo
Não são mais claros do que os sonhos são
Obscura luz paira onde estou converso
A esta realidade da ilusão
Se fecho os olhos, sou de novo imerso
Naquelas sombras que há na escuridão.

Escuro, escuro, tudo, em sonho ou vida,
É a mesma mistura de entre-seres
Ou na noite, ou ao dia transferida.

Nada é real, nada em seus vãos moveres
Pertence a uma forma definida,
Rastro visto de coisa só ouvida.


28-9-1933.



Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.
Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!


5-9-1934



Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?
Não quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.

Para quê?... Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria...
Ah, com que esmola a aquecerei?...

7-1-1935.


Sou o Espírito da treva,
A Noite me traz e leva;
Moro à beira irreal da Vida,
Sua onda indefinida

Refresca-me a alma de espuma...
Pra além do mar há a bruma...

E pra aquém? há Cousa ou Fim?
Nunca olhei para trás de mim...


Fernando Pessoa

Florbela


Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida
Eu sou a que na vida não tem norte.
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida.
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê ...
Sou a que chamam triste sem o ser ...
Sou a que chora sem saber por quê ...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo prá me ver
E que nunca na vida me encontrou!


Tortura


Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento! ...

Sonhar um verso d'alto pensamento,
E puro como um ritmo d'oração!
- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento ...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!


A Flor do Sonho


A Flor do Sonho alvíssima, divina,
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína,

Pende em meu seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim! ...
Milagre ... fantasia ... ou, talvez, sina ...

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?! ...

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh'alma
E nunca, nunca mais eu me entendi ...



Fanatismo


Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim" ..."



Realidade


Em ti o meu olhar fez-se alvorada
E a minha voz fez-se gorgeio de ninho ...
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho ...

Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada ...
E a minha cabeleira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho ...

Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci ...

Tens sido vida fora o meu desejo
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei ... se te perdi ...

FLORBELA ESPANCA